Um caminho para a evolução espiritual
A Cerimônia do Chá (Chanoyu), ou Caminho do Chá (Chado), é a arte de servir e saborear o “matcha”, um chá verde em pó. Seu maior objetivo é proporcionar elevação espiritual ao anfitrião e ao convidado. Uma das principais artes tradicionais do Japão, a cerimônia sintetiza a cultura do país e engloba inúmeras manifestações artísticas. Em nenhum outro lugar do mundo, sua contribuição foi tão significativa culturalmente. As artes florais, cerâmica, caligrafia, arquitetura, jardinagem, pintura, música, entre outras, sofreram forte influência do “Chado”, composto também pela apreciação dos utensílios, que muitas vezes são objetos de grande valor artístico. Meishu-Sama foi um grande apreciador da Arte do Chá. Ao receber pessoas no Sanguetsu-An (Casa de Chá Montanha e Lua), em Hakone, preparava pessoalmente a sala, escolhendo as caligrafias a serem expostas, vivificando as flores e recebendo os convidados com muito prazer. Ao ser perguntado por um interlocutor se ministros e missionários, independente do sexo, deveriam conhecer Ikebana e Cerimônia do Chá, Meishu-Sama respondeu afirmativamente. “Isso porque a Arte se desenvolverá intensamente, no mundo paradisíaco. Aqueles que têm condições de praticar devem fazê-lo”, explicou. Segundo a 3ª Líder Espiritual, Itsuki Okada, filha de Meishu-Sama, a cerimônia é uma arte de caráter global, contribuindo para a elevação espiritual das pessoas de todo o mundo. Além da beleza dos elementos artísticos, engloba a beleza da natureza e a beleza de cunho religioso. Essa arte é o caminho mais curto para alcançarmos uma vida baseada na trilogia Verdade, Bem e Belo, fundamental para a criação do Paraíso Terrestre, maior objetivo da Igreja Messiânica.
Histórico
No século XII, Eisai, monge da seita budista Zen, introduziu no Japão o “matcha”, que substituiu o chá em tijolo. Restrito inicialmente aos monges budistas, o hábito de tomar chá foi, em pouco tempo, incorporado pelos nobres, pelos samurais e chegou às comunidades rurais. Antes das incursões guerreiras, os samurais costumavam se reunir para adquirir elevação espiritual. Como não sabiam se sobreviveriam à jornada, procuravam participar da cerimônia como se fosse a última vez. Por isso, ainda hoje, o anfitrião empenha-se ao máximo para oferecer o melhor ao convidado, procurando tornar o mais agradável possível o encontro. O monge zenista Murata Shuko (1422-1502) estabeleceu a Cerimônia do Chá japonesa. Já Sen no Rikyu (1522-1591), também monge zenista, definiu a estrutura estética do “Chanoyu”, como é conhecida hoje. Considerado o maior mestre do chá e fundador da Urasenke, a mais tradicional escola de Chá do Japão, Sen no Rikyu identificou os quatro princípios da cerimônia: “wa” (harmonia), “kei” (respeito), “sei” (pureza) e “jaku” (tranqüilidade). “A Cerimônia do Chá é a conjunção de quatro fatores: treinamento, arte, cerimonial e sociabilidade”, afirmou. No século XIX, Okakura Tenshin escreveu “The Book of Tea” (“O Livro do Chá”), que contribuiu para a divulgação do “Chado” por vários países.
Evolução espiritual
Os movimentos realizados no “Chado” são muito suaves, delicados, graciosos, meticulosos, elegantes, sem desperdícios, sendo preestabelecidos instante por instante. O anfitrião começa a preparação dias antes do encontro, mas não só de forma espiritual. De acordo com a estação do ano e solenidade do evento, ele escolhe cuidadosamente os melhores utensílios: tigelas de chá, louças, flores, lenços de seda, incenso. Antes da cerimônia, pode ser servido o “kaisseki” (refeição). Presentes na Cerimônia do Chá, o espírito de servir, o altruísmo, a gratidão, a beleza, a ordem e a simplicidade trazem evolução espiritual ao anfitrião e convidado. Tudo isso sugere, naquele ato, uma pausa para reflexão sobre si mesmos e sobre o momento que estão compartilhando. No pensamento oriental, a partir do “do” (caminho) alcança-se o “satori”, ou seja, a compreensão, a intuição e a percepção das coisas. Daí a origem da palavra “Chado” – o caminho do chá –, que foi aperfeiçoado até se tornar um meio de conquista de autocontrole emocional, auto-expressão e iluminação espiritual. A duração do “Chado” é de cerca de quatro horas. Para entrar na sala de chá é preciso purificar-se. Anfitrião e convidado deixam tudo o que é mundano, profano, do lado de fora. Não são usados objetos como anel, jóias, brincos ou colar. Sandra Caldas Lourenço, praticante da cerimônia há sete anos, acredita que é indispensável participar do “Chado” para compreendê-lo mais profundamente. “Cada anfitrião e convidado têm uma reação diferente, a cada cerimônia. O Caminho do Chá é difícil de ser explicado em palavras. Ele precisa ser vivenciado”, diz. Cada cerimônia é única. As sensações que ela proporciona jamais se repetem. Daí, a origem da expressão japonesa “itigo itie” (um momento, um encontro único, que jamais se repete). Uma cerimônia nunca é igual à outra porque os convidados, as flores vivificadas e os utensílios são diferentes. O “Chado” deve simbolizar o ato de purificação, ser um meio de divulgar o mundo do Belo, uma forma de deleitar os cinco sentidos e valorizar o fato de colocarmos sentimento em tudo o que fazemos. Além de ser acessível a qualquer pessoa, em qualquer local e momento, sua filosofia pode ser trazida para o nosso dia-a-dia. Na casa de qualquer pessoa, ainda que não seja em uma Cerimônia do Chá, também é possível servir ao convidado um simples café ou chá ocidental com o mesmo espírito do “Chado”. A partir daí afloram, no anfitrião e no convidado, maior bondade, cordialidade, cortesia, graciosidade, disciplina e humildade, libertando-os das preocupações cotidianas.
Texto integralmente extraído da revista "Izunome", parte do site da Igreja Messiânica Mundial do Brasil
